NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI.

Quando nos deparamos com situações incompreensíveis, onde a intolerância e a opressão, parecem tomar conta do ar, e nos faz sentir sufocando, vem a arte e nos mostra, de forma espetacular, que, tudo que por que passamos, ainda tem salvação.

A arte é capaz de nos devolver a sensação de que vale a pena seguir em frente, de que somos capazes de irmos mais além, de voar mais alto. Ela nos resgata de nós mesmos, quando fraquejamos e parecemos nos entregar no meio do caminho. Sentimos a presença de Deus na beleza do que nosso semelhante pode realizar de bom.

Ela nos devolve à vida.

O poema que invade estas páginas, onde me propus a escrever sobre os acontecimentos de nossa vida e colocar em debate algumas soluções possíveis para os nossos problemas diários e constantes, é uma destas peças que te obriga “a seguir a canção” que brota dele, que te faz acordar para a vida, te faz sentir vivo e com ânimo de levantar e prosseguir com alegria, porque, por mais que a jornada seja árdua e nada garanta nosso sucesso, intimamente, sentimos que só em estar No Caminho com Maiákovski, já vale a pena ter começado nossa trajetória.

As partes em negrito referem-se à parte do poema mais conhecido. Boa leitura

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakóvski.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.

Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na Segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz;

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne a aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas ao tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,

por temor aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita – MENTIRA!

Eduardo Alves da Costa

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