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Somos Democratas???

“Nosso mal é que preferimos ser arruinados pelos elogios

a sermos salvos pela crítica”. Anônimo.

 

 

A DIREITA, isto não é novidade para ninguém, vive da fraude, da dissimulação, da manipulação, da enganação. Quem dá créditos às teses da direita ou é mau intencionado ou um tolo útil aos seus interesses e, caso não abra os olhos, perderá o caráter pelo caminho.

 

Dia 16/08, quando me preparava para sair para o trabalho, me deparei com o vídeo acima, postado em meu Facebook e me espantei com o conteúdo, e, como não tinha tempo hábil para pesquisar sobre a sua veracidade, pedi ajuda aos meus amigos de minha lista e, confesso, a resposta que obtive foi muito melhor do que esperava.

Agradeço a atenção de todos com a questão do vídeo de Chico Buarque, que, supostamente, provaria a atitude dele de trambicagem e crime de roubo de propriedade intelectual.

Acredito que resta mais que comprovado que o mesmo se trata de uma brincadeira ocorrida entre amigos em momento de descontração, possivelmente fazendo ironia aos seus críticos.

Gostaria de chamar a atenção para um detalhe que parece não ter ocorrido aos demais, aos cerca de 55 segundos do vídeo o Chico que está com uma camisa de botão na cor azul, passa a usar uma outra sem botão e sem gola, de cor  branca, e, se perceberem, durante todo o vídeo este fato ocorre diversas vezes, o que por si, mostra que a filmagem não foi feita ao mesmo tempo, mesmo que mantenha uma sequencia lógica.

Isto significa que foi feita uma montagem. É, portanto, um vídeo verdadeiro, gravado em momento de descontração íntima de amigos, que faziam uma brincadeira entre si, visando ironizar críticas dirigidas a eles e em que o mesmo foi gravado em momentos distintos e montado para dar uma sequencia lógica a um assunto que foi retomado num momento diferente, exatamente para que tivesse sentido. Este é o meu veredito. Assim falou Zaratustra.

No entanto, o assunto levantado aqui, a respeito do vídeo e da honestidade do Chico Buarque vai mais fundo do que se imagina. Trata-se da liberdade de questionar, coisa essencial em qualquer DEMOCRACIA.

Discordo, frontalmente, de quem me criticou por tê-lo colocado no Face. A discussão colocada não era somente se o Chico Buarque participava de crime de roubo de propriedade intelectual, embora este seja o assunto central, trata-se de muito mais que isto, podemos ver vários assuntos de “fundo” que são tão, ou mais, importantes que o próprio assunto central.

A divulgação de vídeos ou mensagens falsas, na internet, no intuito de destruir a imagem de alguém ou algum grupo, através de montagens ou apenas boatos, é uma questão que se faz importantíssima no momento atual.

Como reagimos à imensa gama de informações que encontramos na internet, hoje, a grande quantidade de informações e, junto a isto, a seleção das informações verdadeiras e relevantes, e que podem nos ajudar a ter uma compreensão melhor das coisas, é outro assunto de relevo.

Crítica-norman-vincent-peale

Algumas pessoas levantaram a questão de que não deveríamos duvidar do Chico, que ele é inquestionável devido à imensa contribuição que o mesmo tem dado à música, à imagem do Brasil, à literatura, à política e tudo o mais. Discordo carinhosamente de quem pensa assim , pois a essência maior da DEMOCRACIA é que não se pode existir pessoas acima de qualquer suspeita, ou, ainda, uma crença infalível e inquestionável.

Um dos princípios basilares de tudo o que creio é que, como todos nós somos falhos, como todos erramos, eu posso estar errado, neste momento, em algo em que acredito ou na forma que tenho agido, logo, chego à conclusão que o melhor amigo de qualquer pessoa que se acredite DEMOCRÁTICA é um símbolo, “?”, a interrogação.

Em meu blog, na área “Sobre o autor” você pode ler: Devemos ser os primeiros a questionar sobre tudo aquilo em que acreditamos e buscar melhorar, sempre.

Este é um dos princípios da verdadeira Democracia, estar aberto a reconhecer que não somos donos da verdade e aceitar que opiniões divergentes das nossas podem ser melhores e aceitá-las, nos prontificando a implementá-las.

Em meu primeiro texto publicado no blog em 29/05/2015 escrevi:

O mundo é muito grande e a nossa vida é muito breve para que eu perca tempo com o que você pensa de mim.

Desta forma quero que saibas que eu vivo a vida procurando fazer o que é certo, pouco me importando se você goste ou não. Caso tenha alguma crítica a fazer, faça. Irei, sempre, considerar as opiniões contrárias às minhas, na exata medida em que compreendo que estas visam a me mostrar uma outra faceta do assunto em questão, e irei modificar meu modo de pensar, e agir, procurando me aperfeiçoar como pessoa, aceitando e até assumindo, opiniões divergentes.

Ninguém é dono da verdade absoluta, então, não se arrogue a sê-lo. Aqui, não se tentará impor “verdade” alguma a quem quer que seja.

Crítica-XicoXavier

Por entender a DEMOCRACIA desta forma não entendo como não possa questionar quem quer que seja, uma vez que sempre estou a questionar as minhas próprias atitudes. A falta de questionamento e o aplauso contínuo e impensado a pessoas e ideologias, fatalmente nos levará a uma situação de perda do senso crítico, que, em casos mais sérios, nos levará a abrir os olhos quando estivermos dentro do pesadelo do arbítrio, como, possivelmente, seja o que nos acontece agora.

Somente falsas personalidades não aceitam e recriminam a crítica. Em toda a minha vida, ao contrário de muitos, a crítica embasada e honesta soou aos meus ouvidos como uma sinfonia perfeita, em absoluta harmonia, uma vez que as questões levantadas contra minhas atitudes e pontos de vista, permitiam me aperfeiçoar como pessoa, e, embora seja bom receber elogios e saber que outras pessoas partilham de nosso ponto de vista, os aplausos são passageiros e não me permitem ir além, não me permitem o aperfeiçoamento do que já tenho.

Nos dias que se aproximam, preparo, portanto, meu espírito para o que de pior o ser humano pode apresentar, pois pretendo fazer analises que vai contra tudo o que temos visto e não pretendo poupar ninguém para obter aprovação estéril e aplausos fáceis.

Alguns acreditam que Democracia seja expressa nas eleições e que ela só ocorra nas casas legislativas, mas, se observarmos bem, a cada novo dia, a verdadeira Democracia está cada vez mais longe destes ambientes, e é por isto que não aposto minhas fichas, em resolver os problemas que vemos hoje no Brasil, na última esperança dos desesperados, que choram estarem sendo apeados do governo por um GOLPE.

Crítica-KarlMarx

Por fim, quero agradecer a todos que atenderam a meu pedido e colaboraram de alguma forma com a questão do vídeo do Chico Buarque, creio que saímos melhores com a discussão do tema do que se tivéssemos fechado os olhos e adotado a posição de que, sendo ele “um dos nossos” é intocável.

A Democracia, para mim, é uma forma de ver o mundo, não uma simples maneira de agir e sentir, acreditando que somente eu e os de meu convívio ou grupo, temos as respostas.

Para me sentir bem, em qualquer ambiente que esteja, é condição imprescindível, poder estabelecer o contraponto, poder exercer a possibilidade da discordância e da crítica, pois, caso isto não me seja permitido, este ambiente será a pior das prisões.

 

Abraço a todos e o meu muito obrigado.

 

Fábio Brito. Santa Catarina, Brasil.

P.S. Termino este texto com a frase abaixo pedindo que paremos de lamentar o GOLPE que tentam nos impor neste momento e que, mesmo que ele se confirme no Senado Federal, com a deposição de Dilma na votação final, tenhamos paciência e reflitamos sobre o momento, nos unamos em torno da solução e busquemos criar um futuro melhor, afinal, o futuro será o que fizermos dele.

Futuro-Peter Drucker

Itarantim, uma cidade à beira da morte e cheia de fantasmas. Até quando?

“As mãos que ajudam são mais sagradas que os lábios que rezam.”

Madre Teresa de Calcutá.

Como nos tornamos cegos diante de nós mesmos a ponto de apedrejarmos as pessoas mesmo tendo Jesus diante delas? Passamos por cima de séculos de conquistas e avanços culturais, civilizatórios, políticos e religiosos, porque algumas pessoas assim propagam que temos que agir, em alguma emissora de televisão, ou assim nos dizem em alguma rádio?

O que, verdadeiramente aprendemos com a leitura da bíblia? Será que verdadeiramente nós a lemos ou também terceirizamos mais este aspecto de nossas vidas, deixando a interpretação a cargo do pastor ou do padre? Acaso não temos discernimento próprio quando o assunto se refere a religião, que não possamos identificar por onde seguir, a não ser que seja pela palavra de outrem?

Em uma infinidade de municípios de nosso imenso Brasil, cidades como Itarantim, onde vivo atualmente, estão, agora mesmo, à beira do abismo, próximas do colapso, e as pessoas que nela vivem, perambulam como zumbis de um lado a outro, enriquecendo uma elite putrefata e envenenando a própria alma com o veneno da intolerância, acreditando que, se assim o fizer, sem questionamentos, será aceita nos banquetes dos senhores da Casa Grande.

Aqui, onde vivo, estou a procurar um, e apenas um, empresário honesto, e confesso de que não tenho notícias de que este tipo raro ainda exista nestas plagas.

Quando me refiro à honestidade de empresários estou a falar que, mais que registrar seus funcionários em carteira e pagar o salário base de sua categoria, coisa que é rara nos interiores do Brasil, estou, também, procurando pessoas que não soneguem em suas empresas.

Por aqui, é mais que comum, é regra, não se emitir nota fiscal ou cupom fiscal. Onde quer que você compre, irá sair do estabelecimento sem os referidos comprovantes fiscais de compra. Como pode o poder público brasileiro permitir uma coisa destas? Por que não há qualquer sinal de uma fiscalização surpresa em uma determinada empresa local, fazendo, com isto, que esta imensa e grotesca sonegação diminua pelo medo de serem pegos em irregularidades?

Lamentavelmente, os cidadãos brasileiros que hoje se levantam contra o Governo Federal, parecem ignorar que, a não emissão dos bilhetes fiscais, faz com que a arrecadação do município, através de repasses do Governo Federal pelo Fundo de Participação dos Municípios, seja menor, e, com isto, os recursos destinados às escolas e aos hospitais, bem como aos cuidados básicos, como vias públicas, praças e áreas de lazer, fiquem prejudicados com a diminuição das verbas arrecadadas pela prefeitura.

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Como se não bastasse isto, o descaso da maioria das prefeituras, como acontece na cidade que vivo, Itarantim, para com o povo mais pobre e com menos condições, é total. Os espaços públicos são “privatizados”, praças públicas tem seus espaços tomados por empreendimentos, retirando da população até o mais elementar lazer, ruas e calçadas são “apropriadas” por pessoas que se entendem no direito de colocar materiais de construção onde, antes, cidadãos tinham direito de andarem em segurança a salvo dos automóveis nas ruas. Se a prefeitura se nega a fiscalizar e a coordenar a utilização dos espaços públicos, para que serve então?

Quando existe um hospital, este funciona de forma absolutamente precária, possuindo equipamentos obsoletos, defeituosos e que colocam em risco a população com o simples uso dos mesmos. Estes ambientes, que deveriam prezar pela higiene e asseio se encontram em condições tão precárias que o seu fechamento até seria recomendável, não fossem deixar esta população sem atendimento algum e submetendo a condições ainda piores, tendo que se deslocar para atendimento em lugares em iguais condições, em distâncias maiores e sem garantias de atendimento.

As condições de manuseio de alimentos são acintosas, degradantes. Animais abatidos em lugares sem higiene alguma e transportados em carroças sem qualquer proteção e a céu aberto onde moscas e poeira pousam tranquilamente deixando um rastro de contaminação mortal. Vigilância Sanitária? Onde?

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Junte-se a isto, os lixões criminosos, onde todo tipo de dejetos são amontoados ao ar livre, sem nenhuma separação e a forma de evitar maiores problemas é a queima de todos os tipos de resíduos indiscriminadamente, liberando uma fumaça altamente tóxica e cancerígena, temos um quadro de calamidade geral. Será que não aprendemos ainda que o correto tratamento dado aos dejetos produzidos diariamente, não só diminui a possibilidade de doenças mas permite a economia e geração de riquezas através da reciclagem dos componentes presente nos descartes das residências e empresas?

Rios recebem lixos despejados inadvertidamente pela população e “morrem” não apresentando sinais de vida neles. Um destes rios, na cidade de Itarantim, parece escoar petróleo de tão preta que suas águas se transformaram. Não fosse o odor fétido que emana de suas águas mortas, poderíamos ver pessoas com baldes a retirar o “líquido negro” de seu leito acreditando ser o “ouro negro” tão cobiçado e que gera tantas guerras.

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Como pode a civilização passar ao largo de tantos lugares aqui e alhures em nosso país? Por que aceitamos as coisas mais absurdas sem levantar a nossa voz contra este gigantesco mar de iniquidades? O que nos faz sermos tão cordatos com coisas tão flagrantemente abjetas e prejudiciais a todos nós e tão intolerantes a coisas, muitas vezes, insignificantes ou que nem nos dizem respeito direto, como a escolha da opção sexual dos demais cidadãos?

Igrejas são erguidas em nome de Deus pregando, contraditoriamente, a intolerância e a condenação das atitudes de outras pessoas, enquanto os responsáveis pelas mesmas, ao invés de investir o que se arrecada nelas, nas pessoas, na solidariedade humana, levando alimentos a quem tem fome ou roupas a quem nada tem, compram fazendas e imóveis e montam impérios, rindo da boa vontade e da fé das pessoas e se regozijam com a isenção tributária dispensada pelo fisco brasileiro para as religiões. Em nome de que esta isenção, pergunta-se, e até quando?

A hipocrisia reina absoluta! Os que encontram-se errados até a medula, parecem acreditar em sua santidade diante da inércia das autoridades que deviam estar a proteger os cidadão dos abusos de toda a ordem a que estão submetidos.

Em nossa Constituição diz-se que todos são iguais perante a lei, mas, no entanto, quando nos referimos a cidadãos de cidades interioranas, com populações menores que 50.000 indivíduos, esta parte de nossas leis são apenas letras mortas, como os rios fétidos e os lixões a céu aberto. Acima delas pairam apenas o preto dos urubus, os juízes de capas pretas existem apenas no país de faz de contas, que se vê nas transmissões televisivas. Justiça nenhuma, saúde nenhuma, lazer nenhum, educação zero.

Até quando iremos permitir e aceitar uma aberração destas assim, pacificamente e resignadamente? Até quando iremos continuar sem nos mover contra tudo isto?

Cada um de nós tem o poder de mudar o mundo, se assim o quisermos, a começar a mudar a nós mesmos a não permanecermos calados diante de situações de injustiças. A corrupção toma seu lugar quando vemos situações erradas e nos calamos. As arbitrariedades fazem festa em nosso lombo, quando fingimos que não vemos.

O que nos impede de solicitar a escala de plantão dos médicos e servidores dos hospitais que deveriam funcionar para o bem de todos em cada município brasileiro? O que nos impede de exigir que estas escalas sejam expostas em locais visíveis com os nomes dos funcionários e horários de cada um, com dias e horas respectivas?

O que nos impede de sabermos quais os nomes, funções, horários e locais de trabalho de cada servidor concursado e/ou contratado pelos municípios? O que nos impede de fixar a remuneração de vereadores tão pouco produtivos, para os cidadãos de nossas cidades?

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Como não exigir, numa cidade como Itarantim, por exemplo, que sejam apurados os comentários à boca miúda, a respeito de funcionários fantasmas que existiriam na prefeitura? Como não pressionar os vereadores para que se apure e se divulgue a lista dos trabalhadores do município?

Não nos parece plausível que absurdos desta ordem continuem a proliferar, onde quer que sejam encontrados. Onde estão os vereadores da cidade e que atitude irão tomar diante da questão dos funcionários fantasmas? Os cidadãos irão pressionar seus vereadores a tomarem alguma medida de fiscalização e apuração do problema?

Talvez a questão a saber é: até onde estamos dispostos a nos indignar contra os abusos cometidos contra nós mesmos e a defender-nos e aos nossos semelhantes, vizinhos, amigos e parentes destas mesmas arbitrariedades?

Uma cidade onde sua população não pode exercer a possibilidade de participar nas decisões exaradas de sua prefeitura é, desde já, uma cidade condenada a se transformar num presídio, onde as pessoas que são postas no comando apenas exercem o poder de quadrilhas, mesmo que estas se sucedam no poder.

É um lugar onde a humanidade está condenada a extinção, mesmo que prospere e cresça em seu espaço físico, mas, em seu povo, a chama da vida se apagará um pouco mais a cada dia e a centelha divina, mesmo com a proliferação de templos religiosos, se esvairá cada vez mais, com o suceder das noites, até que se extinga de vez.

Cada um de nós tem um poder imenso dentro de si e este poder pode ser resumido em um sinal apenas, “?”, o de interrogação. Questionar as coisas que vemos e querer saber como e porque funcionam de determinada maneira e saber se poderiam ser de uma outra forma, é, em si mesmo, o começo de toda e qualquer revolução.

Comecemos então a questionar.

Por quê?

Fábio Brito – Bahia.

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI.

Quando nos deparamos com situações incompreensíveis, onde a intolerância e a opressão, parecem tomar conta do ar, e nos faz sentir sufocando, vem a arte e nos mostra, de forma espetacular, que, tudo que por que passamos, ainda tem salvação.

A arte é capaz de nos devolver a sensação de que vale a pena seguir em frente, de que somos capazes de irmos mais além, de voar mais alto. Ela nos resgata de nós mesmos, quando fraquejamos e parecemos nos entregar no meio do caminho. Sentimos a presença de Deus na beleza do que nosso semelhante pode realizar de bom.

Ela nos devolve à vida.

O poema que invade estas páginas, onde me propus a escrever sobre os acontecimentos de nossa vida e colocar em debate algumas soluções possíveis para os nossos problemas diários e constantes, é uma destas peças que te obriga “a seguir a canção” que brota dele, que te faz acordar para a vida, te faz sentir vivo e com ânimo de levantar e prosseguir com alegria, porque, por mais que a jornada seja árdua e nada garanta nosso sucesso, intimamente, sentimos que só em estar No Caminho com Maiákovski, já vale a pena ter começado nossa trajetória.

As partes em negrito referem-se à parte do poema mais conhecido. Boa leitura

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakóvski.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.

Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na Segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz;

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne a aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas ao tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,

por temor aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita – MENTIRA!

Eduardo Alves da Costa